4 de março de 2026

Nota do Sepe sobre estupro coletivo contra estudante em Copacabana


4 de março de 2026

O caso de estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos, perpetrado por quatro adultos e um estudante menor de idade, é retrato chocante da realidade com que a sociedade brasileira tem se defrontado nos últimos anos, com o aumento de casos de feminicídio e ataques contra mulheres registrados em todo o país. Estes fatos registrados diariamente pela imprensa mostram que estamos vivendo uma alarmante epidemia deste tipo de episódio, caracterizado pela misoginia e pela sensação de impunidade para com aqueles que praticam este tipo de crime.

No caso de Copacabana, os criminosos são jovens adultos e um menor de idade, todos de classe média, com acesso a todo tipo de informação e às legislações referentes ao crime que cometeram. Mas isto não impediu que eles agissem e perpetrassem a violência contra a adolescente em plena luz do dia, dentro de um apartamento. E, por isso, merecem punição exemplar pelo crime que praticaram de forma consciente e planejada. Agora, a polícia começa a receber denúncias de outras jovens atacadas por eles em outras ocasiões, mostrando que existe um método, um modus operandi e uma sensação de impunidade da parte desses criminosos para a prática recorrente dos seus crimes.

Dois desses suspeitos já se entregaram à polícia na terça-feira (03/03) – os outros três ainda se encontravam foragidos até o final da manhã desta quarta-feira (04/3), quando mais dois se apresentaram na 13ª Delegacia Policial. Entre eles, um é filho de um subsecretário da pasta de Direitos Humanos do governo do Estado, exonerado ontem pelo Diário Oficial. Essa informação é importante para mostrar o quanto o problema da violência contra as mulheres atingiu é preocupante em nosso país, onde dados do Ministério da Justiça mostram que uma média diária de 4 mulheres são mortas no Brasil vítimas destes crimes de ódio. Em 2025, o país registrou um novo recorde histórico, com 1.470 feminicídios.

Se considerarmos o número total deste tipo de crime entre praticados e tentativas, o número ultrapassa 6,9 mil vítimas, uma alta de 34% em relação ao ano de 2024. Destas vítimas, 64% são mulheres negras e 70% tinham entre 18 e 44 anos. Estes dados alarmantes servem para mostrar que o caso deste estupro coletivo está inserido numa realidade que coloca a mulher e também as pessoas LGBTQIAP+ como alvo de práticas de violência que estampam as páginas diárias dos nossos noticiários.

Para ficarmos só nos casos de aumento da violência sexual contra mulheres no município do Rio de Janeiro, segundo a 5ª edição do Mapa da Mulher Carioca, da Prefeitura do Rio, somente em 2024 houve 5.700 notificações de violência contra adolescentes, com três em cada cinco casos de vítimas de violência sexual sendo meninas. Ainda de acordo com o estudo, as mulheres são a maioria das vítimas de ameaça (65,5%) e dos casos de lesão corporal no município: foram 42.107 em 2024, o equivalente a 64,9% dos registros. A violência sexual mantém o mesmo padrão: das 1.701 notificações, 85,8% tiveram mulheres como vítimas, com mais de mil envolvendo crianças e adolescentes; de 2020 a 2024, o registro de feminicídios triplicou no município, chegando a 51 casos consumados, além de 117 tentativas. Em dois terços dos casos, o autor era companheiro ou ex-companheiro (dados do Portal Brasil de Fato).

No mês passado, foi lançado em Brasília pelo governo federal o “Pacto Nacional – Brasil contra o Feminicídio”, em reconhecimento de que a violência contra as mulheres no país é uma crise estrutural, que não pode ser enfrentada por ações isoladas – a divulgação do programa traz como uma das ideias centrais a necessidade de que os homens assumam a responsabilidade pelo fim do feminicídio.

Estudiosos também destacam a importância do diálogo com os meninos, estudantes, que vêm sendo cooptados por movimentos extremistas e de ódio contra as mulheres. A comunidade na qual os jovens estão inseridos tem papel central nesse processo, assim como, e cada vez mais, as redes sociais.

PESQUISA MOSTRA QUE PROBLEMA JÁ AFETA O COTIDIANO DAS ESCOLAS

Uma pesquisa recente (2025-2026) sobre as percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas, desenvolvida pelo Instituto Serenas, que atua com a prevenção das violências baseadas no Gênero no Brasil trouxe dados que mostram a necessidade e discutir este tema no cotidiano da escola. Segundo o estudo, no último semestre, 42% dos professores relataram ter testemunhado situações em que meninos tocaram ou acariciaram o corpo de meninas de forma desrespeitosa ou sem consentimento. Os que presenciaram alunos sensualizando meninas por conta da roupa ou comportamento delas representaram 23% dos respondentes.

Contudo, esse comportamento inadequado não vem apenas dos estudantes. O estudo apontou que mais da metade dos docentes ouvidos afirmaram já ter presenciado colegas fazendo comentários machistas e constrangedores a respeito do corpo das alunas e 15% deles relataram ter conhecimento sobre situações de assédio sexual de docentes contra alunas no último semestre.

Ainda segundo a pesquisa, 70% dos professores entrevistados presenciaram falas machistas ou assédio por parte dos alunos e a maioria deles não se sente capacitada para abordar este tipo de questão em sala de aula.

O Sepe se solidariza com a estudante vítima desse crime bárbaro e com todas as outras vítimas que registram ou não este tipo de agressão. A resolução desse crime e a punição dos culpados — dentro da lei — têm que ser exemplares. Como profissionais de educação que somos, defendemos uma mudança no repensar sobre a forma como a escola e os demais entes sociais enfrentam e tratam desse gravíssimo problema precisa estar na ordem do dia de professores e professoras e da sociedade como um todo.

Simplesmente punir e “dizer” que, ao final, está tudo certo, pois os culpados foram “encontrados”, certamente não resolverá o feminicídio e a violência de gênero.

Que o Brasil tome consciência de vez para a gravidade dos casos de ódio contra as mulheres, que têm como consequência o feminicídio e a violência sexual, como ocorreu agora na cidade do Rio de Janeiro, num bairro que é um dos cartões postais do país para o mundo; que o país acorde, mas não só em termos de punição, e sim também de novas formas de ensino e de ressocialização dos implicados; enfim, que a sociedade aceite de vez que precisa se curar.

No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, teremos mais uma edição do 8M, quando, mundialmente, são realizadas manifestações de rua em praticamente todo o mundo para exigir e garantir mais direitos para as mulheres. No Rio de Janeiro, o ato do 8M está marcado para a Praia de Copacabana, na altura do Posto 3 da Avenida Atlântica, a partir das 10h.

Que, em 2026, durante as manifestações e as passeatas que serão realizadas em todas as cidades a pauta da garantia à vida das mulheres e de todos aqueles(as) que sofrem cotidianamente com a violência de gênero se sobreponha ao repulsivo discurso de ódio contra a liberdade e a garantia de uma vida segura, longeva e digna para todos e todas.

Basta de violência contra a mulher.








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